Gnose
Gnose (grego gnōsis, "conhecimento") é o conhecimento direto, experiencial, salvífico do divino — distinto do conhecimento racional discursivo. Conceito central de várias tradições místicas judaicas, cristãs e islâmicas, e o nome da família de correntes religiosas conhecidas como gnosticismo (séc. I-IV d.C.).
O gnosticismo antigo
O gnosticismo foi um movimento religioso plural nos primeiros séculos da era cristã — Valentinianos, Setianos, Basilidianos, Mandeus, Maniqueus, entre outros — que partilhava certos traços:
- Dualismo cosmológico — distinção radical entre mundo material (criação imperfeita ou má) e mundo espiritual (verdade transcendente).
- Demiurgo — o "deus criador" do Antigo Testamento (Yahweh) é, para muitos gnósticos, um deus inferior ou ignorante; o verdadeiro Deus está além.
- Sofia / Sabedoria caída — figura feminina que "cai" do mundo divino e gera o cosmos material por erro.
- Salvação por gnose — não por fé nem por obras, mas por conhecimento interior da própria origem divina.
Os textos descobertos em Nag Hammadi (Egito, 1945) — Evangelho de Tomé, Evangelho de Filipe, Apocrifo de João — deram acesso direto a esta literatura antes conhecida só por refutações dos Padres da Igreja (Ireneu, Hipólito).
Gnose como conceito místico geral
Para além do gnosticismo histórico, "gnose" designa o tipo de conhecimento característico de várias místicas:
- O jñāna hindu (mesma raiz indo-europeia) — sabedoria libertadora.
- O ma'rifa sufi — conhecimento divino direto.
- A "ciência infusa" dos místicos cristãos (Eckhart, João da Cruz).
- A "iluminação súbita" zen (kensho).
Todas estas tradições partilham a intuição de que existe um conhecer que não é informação acumulada — é transformação do sujeito que conhece.